Brasil, (não) mostra a tua cara
por Julia Vidile
Sabemos que no Brasil o anonimato é proibido, artigo 5º da Constituição, tal e coisa. Mas a internet é um outro mundo. Lá, o anonimato não é somente proibido, mas inteiramente impraticável.
Quem acompanha um pouquinho o mundo dos blogs, tweets e memes sabe do que estou falando: basta surgir um vídeo de sucesso na rede (seja de uma briga inusitada, uma dancinha ridícula ou uma receita constrangedora) para que, horas depois, também estejam circulando o nome completo da pessoa, seu endereço, lugares em que estuda e trabalha, telefone fixo e celular, conta no orkut, nome dos pais, credo, raça e nível de alfabetização. O processo é incontrolável, porque ninguém – nem mesmo você, que se acha tão ermitão e antissocial – vive em uma bolha. Seu irmão, seu vizinho, seu padeiro, seu colega do curso de bordado, estão ali (e na internet) para apontar o dedo na sua cara e dizer “puts, conheço esse sujeito”.
E obviamente a coisa não fica por aí: em seguida vêm os trotes telefônicos (devidamente gravados), vídeos-resposta, paródias, camisetas, enfim, o equivalente atual do piche e penas do Velho Oeste. Depois disso, sua dignidade pode ser recolhida com uma pinça.
Seria possível argumentar que em nossos dias as coisas estão melhores, justamente por causa do próprio crescimento da internet: assim, se ainda hoje lembramos do “Tourist Guy” (aliás, por onde ele anda, hein? Um beijo, Tourist Guy!) e do “Star Wars Kid”, fenômenos de há dez anos, já nos esquecemos de coisas de poucos meses ou poucas semanas atrás. Mas a internet não esquece. O que você gostaria que seu futuro patrão ou namorada encontrasse quando digitasse seu nome na caixa de pesquisa do Google?
Pois é, não dá para formatar a internet…


