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Windows 95: quinze anos de grandes feitos e telas azuis

Publicado por Redação em 25/08/10 às 00h12

Era muito chato ser um usuário de Macintosh (ou Linux, ou OS/2, ou Amiga…) em agosto de 1995, pois um assunto único monopolizava todas as rodas de discussão e BBS de informática: a chegada do novo sistema da Microsoft, codinome “Chicago”. Matérias em todo

Memórias de um tempo em que a computação deixou de ser para especialistas.

Por Mario Amaya

Era muito chato ser um usuário de Macintosh (ou Linux, ou OS/2, ou Amiga…) em agosto de 1995, pois um assunto único monopolizava todas as rodas de discussão e BBS de informática: a chegada do novo sistema da Microsoft, codinome “Chicago”. Matérias em todos os programas de TV, filas nas portas de lojas, eventos especiais ao redor do mundo, campanha publicitária de TV com trilha sonora dos Rolling Stones (youtu.be/HM0DL5giOBU). Nunca mais a companhia de Bill Gates e Steve Ballmer gerou uma empolgação tão grande e genuína com a chegada de um produto seu, nem o adjetivo “revolucionário” foi usado tão frequentemente para referir-se a ele.


Vários programas ao mesmo tempo, e um paradigma de operação que perdura até hoje. Ninguém estranharia o Windows 95, quinze anos depois. (Wikipedia)

O Windows 95 unificou o DOS com o Windows – que até então era nada mais que um “apresentador gráfico” rodando diretamente sobre o DOS, requerido apenas por programas específicos – e veio no embalo do avassalador sucesso prévio dos dois produtos em separado. Pegou carona no aumento dramático das vendas de computadores, da adoção em massa de “kits multimídia” e da iminente explosão da Web. Essas novidades todas anunciavam tempos muito interessantes no porvir. Para muitos tecnologistas, o evento marcou também o fim da inocência no mundo da computação.

Com o Windows 95, as exigências técnicas dos PCs deram um salto enorme. O computador deveria ter gráficos coloridos com ícones, janelas e menus; áudio, para reproduzir os sons do sistema e tocar CDs; memória suficiente para poder abrir múltiplos programas ao mesmo tempo; e tudo isso junto para rodar os títulos multimídia em CD-ROM. (Quem não tivesse o drive de CD estava condenado a instalar o Windows a conta-gotas, usando uma versão distribuída em 22 disquetes). De modo geral, graças ao Windows 95 e aos componentes multimídia, o PC aproximou-se muito do seu paradigma inspirador, o Macintosh, que estava num período de estagnação tecnológica e custava caro demais para ter proveito fora de ambientes profissionais especializados, como estúdios e gráficas. Já os PCs estavam barateando dramaticamente; era a época do começo do Plano Real e um PC completo e compatível saía por menos de R$ 1500.


O tutorial da primeira execução, mostrando o botão Start – parecendo um daqueles desenhos animados em que a máquina mostra uma tabuleta escrito “aperte aqui”. (Wikipedia)

No final do “Jornal Nacional” de 24 de agosto de 1995, Cid Moreira apresentou uma matéria de três minutos e meio (youtu.be/lJkpBffLbc4) sobre a feira anual Fenasoft, em São Paulo, cujo ponto alto foi o lançamento do Windows 95 no Brasil. Cid apresentou o novo produto como “o supersistema que vai ajudar até quem não entende nada de computadores” – e de fato, a propaganda da Microsoft era totalmente voltada aos consumidores. O repórter da Globo no evento dizia, acerca do Windows: “duas vezes mais veloz” e “adeus à tradicional espera para acessar os programas: é ligar o computador e eles aparecem na tela imediatamente”. Dizer “mais veloz” sem dizer “do que”, sem dúvida, não passava de repetição de discurso de marketing. Mas a moderna multitarefa preemptiva (a capacidade de rodar mais de um programa ao mesmo tempo), um dos melhores aspectos do sistema, não encontrava nada similar para o consumidor. Quanto a acessar os programas imediatamente, eis aí uma promessa até hoje cumprida pela metade.

Na semana seguinte ao lançamento, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma enorme lista de títulos de software que não rodavam dentro do Windows 95; em sua maioria, eram programas exclusivos para DOS ou que davam conflito com drivers. Esses programas aguardariam atualizações ou ficariam obsoletos para sempre. O público, porém, não se abalou com o salto tecnológico e o investimento necessário, já que as vantagens eram claras. A arquitetura interna “quebrou” a compatibilidade com muita coisa anterior, mas em contrapartida oferecia o recurso “plug and play” de autoconfiguração de periféricos, além de suportar nativamente aplicativos de 32 bits. O Windows 95 introduziu os nomes de arquivos longos (de até 255 caracteres), que ajudaram a afastar da informática um de seus aspectos mais intragáveis para o usuário leigo. Destaque também recebia o simpático visual do sistema, com efeitos de relevo no mesmo estilo do NextStep. Pouca gente sabe, mas esse “skin” do Windows 95 (e, por extensão, também dos Windows 98, Me e 2000) é uma criação de Susan Kare, a mesma designer do primeiro sistema do Mac.

Grande parte da população teve no Windows 95 seu primeiro sistema de computador movido a janelas, ícones, menus e mouse. 1995 era o ano de sofrer constantes paus bizarros com o Netscape Navigator e visitar muitos websites que consistiam em páginas de links azuis com fundo cinza e uma única imagem grande no topo; navegar na verdadeira enxurrada de títulos interativos em CD-ROM, especialmente videogames modernos com “sprites” tridimensionais e efeitos sonoros estéreo; de fuçar as configurações do modem para conseguir entrar pela primeira vez na Internet.

O administrador de sistemas Alexandre Torres (@tsialex) evoca aqueles doces tempos com uma terminologia geek que os novatos de hoje poderão não compreender: "Lembro do 486DLC (aquele 486 “de pobre” com 16 bits de barramento e suporte a código de 32 bits, numa placa-mãe de 386), com enormes 16MB de RAM e “winchester” Seagate de 80MB “doublefullheight” (ocupava duas baias de 5 1/4") – como eram pesados os HDDs! Monitor EGA (16 cores simultâneas a 640×350 pixels); configurar autoexec.bat e config.sys na unha para sobrar uns parcos KB abaixo do limite da memória básica de 640KB; modem de 9600kbps “jumpeado”… Coisas que me impressionaram no Windows 95: painel de controle, todas as configurações em um lugar só; drivers já embutidos no sistema; multitarefa – ah que lindo!"

O Windows 95 veio à luz sem dois recursos que consideramos fundamentais em qualquer PC atual: Web e USB. O Internet Explorer vinha à parte, no pacote Plus!, e foi integrado à instalação do sistema com o primeiro Service Pack, de fevereiro de 1996. O USB só daria as caras no suplemento ao Service Release 2 (“Detroit”), exatamente dois anos após o “Chicago”, em agosto de 1997 – mas ainda levaria dois anos para acontecer a sua adoção maciça, que foi ironicamente puxada pelo Apple iMac e não por um PC.

A Web acabou sendo o pivô do processo antitruste do governo dos EUA contra a Microsoft em 1997, mas até aí, já era tarde: o Windows já suplantara todos os concorrentes, ajudara a reforçar a liderança do outro grande produto da Microsoft – o Office – e se firmara na posição que conserva intocável até hoje, de presença em cerca de 90% de todos os computadores pessoais no mundo.

Gostando ou não do Windows 95, ninguém se furta de reconhecer sua importância no reino da computação pessoal, e o marco que representou. Por isso, neste dia 24 de agosto, o dia exato em que o sistema deixou de ser Chicago e passou a se chamar Windows 95 ao som de Start me up, dos Rolling Stones, só há o que comemorar. Com tela azul e tudo.

Comentários
Paultx comentou em 08/09/10 às 01h30: Responder Em 1996 um IBM Aptiva, meu primeiro PC doméstico, trazia o Windows 95 e 8 MB de RAM. Me empolguei e comprei a Encarta, enciclopédia da MS, e ela travava o micro, era só colocar o CD. Tive de botar mais 32 MB de RAM pra vê-la em todo o seu esplendor! Good ol′ times... Parabéns pelo excelente artigo.
Alan Vitor comentou em 31/08/10 às 00h51: Responder Muito bom, dá até pra dizer..″que saudades daqueles tempos!″.. se os tempos atuais não fossem tão diferentes e melhores em matéria de Sistema Operacional.. :D
Paulo Cavalcanti comentou em 25/08/10 às 09h48: Responder Ótimo artigo! Bem escrito e informativo. Li de cabo a rabo num só fôlego. Parabéns!








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