Por Rafael Rigues,
Publicado originalmente na Revista Oficial do Windows #24
Desde que surgiu no mercado há cerca de dois anos, os netbooks são a categoria que mais cresce no mercado mundial de informática. A ideia por trás do produto, derivado de projetos para o mercado educacional como o "One Laptop Per Child" (também conhecido como "laptop de US$ 100") e Classmate PC, é simples: oferecer uma máquina portátil, com hardware simples porém ainda assim suficiente para as tarefas do dia a dia, e vendê-la pelo menor preço possível.
O primeiro netbook foi o EeePC 701, da ASUS, mas hoje é impossível contar quantos há no mercado: todo mundo, do menor integrador de Taiwan aos grandes fabricantes tem pelo menos um modelo, e há opções para todos os gostos e bolsos. Após uma fase de confusão inicial entre os netbooks e os notebooks de baixo custo, o público parece ter entendido o espírito da coisa, e as vendas vão de vento em popa. Dados do DigiTimes, de Taiwan, estimam que entre 25 e 30 milhões de netbooks foram vendidos mundialmente neste ano, e que as vendas em 2010 podem chegar a 35 millhões de unidades.
Todo este sucesso fez os fabricantes pararem para pensar no próximo passo. O hardware de um netbook comum parece ser suficiente para a maioria dos usuários, então não seria necessário mexer nesta parte. O preço... Bom, reduzir o preço nunca faz mal. "Já sei!", exclamou um engenheiro. "Tiramos a tela e a bateria, colocamos tudo em um gabinete pequeno e vendemos como um desktop!". Nascia aí o conceito do "nettop".

LADO A Dimensões físicas reduzidas não se traduzem em recursos parcos: na parte frontal do "PC da NVIDIA"traz duas conexões de áudio (Mic In e Audio Out), mais duas portas USB 2.0...

LADO B ... enquanto a traseira esconde uma porta óptica (SPDIF), a entrada de energia, porta Ethernet, mais 4 USB. E não é que ainda sobrou espaço para uma providencial conexão HDMI?
ION, uma solução
O NVIDIA Ion não é um produto, mas uma especificação que pode ser adotada por vários fabricantes no formato que acharem mais conveniente. Aqui estamos falando de nettops, porque foi o que testamos, mas é possível ter um netbook Ion ou mesmo um "desktop tradicional" Ion, como o recém-anunciado Positivo Union Touch.
A receita básica inclui um processador Intel (geralmente um Atom a 1.6 GHz) acompanhado de uma GPU NVIDIA GeForce 9400M. Esta GPU tem uma característica crucial para o conceito: além de acelerar o cálculo de gráficos 3D ela pode ser programada para "computação geral" (GPGPU ou General Purpose computation on Graphics Processing Unit) auxiliar o processador em qualquer tarefa que exija cálculo intenso. E cálculos são a base de muitas tarefas do dia a dia em um PC, da reprodução de vídeo ao retoque em uma foto.
Dado software capaz de tirar proveito desta combinação, um nettop com ION é capaz de realizar algumas tarefas de forma muito mais veloz do que um nettop com um chipset Intel, ou mesmo um PC um pouco mais poderoso, mas ainda sem uma GPU dedicada. E foi para ver o quão grande é o ganho de desempenho que decidimos fazer este teste.

Position Union Touch.
A NVIDIA nos cedeu gentilmente um nettop Ion, equipado com um processador Intel Atom de 1.6 GHz, GPU GeForce 9400M, 3 GB de RAM e HD de 160 GB. Reconhecemos que os 3 GB de RAM DDR3 a deixam um pouco "turbinada", já que estimamos que a maioria das máquinas vá chegar ao mercado com 2 GB de RAM DDR2.
O gabinete é muito pequeno, pouco maior que uma caixinha de DVD comum. Chegou a ser confundido com um HD externo e um roteador Wi-Fi, mas nunca com um PC completo. O sistema operacional usado foi o Windows 7, que rodou admiravelmente bem durante uma semana de uso intenso.
No "arroz com feijão" da informática diária, o desempenho de um nettop Ion é idêntico ao de um nettop ou netbook comum com chipset Intel. Tarefas como a cópia de arquivos, abertura de programas, edição de textos e navegação web não são aceleradas pela GPU, então não espere ficar boquiaberto aqui. Infelizmente, aqui também fica um ponto fraco da plataforma: é cada vez mais comum entre os usuários assistir vídeos em "alta resolução" via streaming, em serviços como o YouTube e Vimeo. E nestas horas a máquina engasga, porque o Adobe Flash Player deixa a tarefa de decodificação para o processador, que não dá conta do recado. Mas Adobe e NVIDIA já anunciaram uma nova versão "10.1" do Flash Player, que chegará ao mercado em breve fazendo uso completo de GPU para aceleração também no streaming.
A vantagem do Ion é notável quando partimos para tarefas mais complexas. Jogar em um nettop convencional (ou em um netbook) é um exercício fútil, mas em um Ion é perfeitamente possível. Rodamos Spore, Lego: Indiana Jones e Call of Duty 4 sem problemas. Em compensação, outros jogos, como Need for Speed Carbon, engasgaram mesmo em baixa resolução e com todos os efeitos desativados. Tudo depende de como o jogo usa a GPU e da configuração de vídeo nas opções do jogo. Seja modesto e suas chances de sucesso serão maiores. Em suma, não dá para rodar Crysis com todos os efeitos no máximo, mas dá para se divertir bastante.

ION 330 AsRock.
Outra diferença é na hora de converter vídeo, uma tarefa cada vez mais comum mesmo entre os usuários menos experientes graças à proliferação de aparelhos como iPods, Zunes e smartphones variados. Fizemos um teste convertendo o mesmo clipe, com duração de 24:10, para o iPhone usando dois conversores diferentes: o primeiro é o Badaboom, da Elemental Technologies, que usa a GPU para acelerar a tarefa. O segundo é o Handbrake, um versátil projeto Open Source (com versões para Windows, Linux e Mac) que faz todo o trabalho na CPU.
A vantagem foi clara: o Badaboom completou a tarefa em 18 minutos e 57 segundos, mais rápido que "em tempo real". O Handbrake se arrastou por muito mais tempo: 45 minutos e 50 segundos, duas vezes e meia mais lento, para ser exato. Além disso, o Handbrake "matou" a máquina durante a conversão, deixando-a lenta demais para outros usos. Com o Badaboom, foi possível navegar na internet sem problemas enquanto a conversão acontecia em segundo plano.
GPGPU é uma tendência, que em breve será adotada por cada vez mais programas. O Photoshop CS4, por exemplo, é capaz de usar a GPU para acelerar operações de edição de imagem, como a aplicação de filtros complexos. E o novo Windows 7 também tira proveito da GPU para mais do que os efeitos de transparência nas janelas, como durante a reprodução de vídeo com o Windows Media Player ou a transferência e conversão de arquivos para Media Players compatíveis.
A plataforma Ion tem também uma saída HDMI, que permite ligar o nettop diretamente numa HDTV. O Windows 7 fica um espetáculo e é espantoso ver uma tela gigante sendo gerada por um aparelho tão diminuto. Filmes em alta definição rodam perfeitamente, sem trancos.
Estou convencido, onde assino?
Máquinas baseadas na plataforma NVIDIA Ion estão chegando aos poucos ao Brasil (como o Positivo Union Touch da foto acima), mas são uma tendência clara para 2010. No exterior, empresas como a Lenovo e Acer já comercializam alguns modelos, mas é cedo para falar em datas e preços por aqui. Mas se tivermos que dar um palpite, imagino que um nettop Ion bem equipado chegará às lojas por preço menor que o de um netbook "médio", que hoje está na faixa dos R$ 1.500.
Mas se você já tem um PC, não precisa esperar um lançamento nacional. Basta adicionar uma placa de vídeo dedicada, como qualquer GeForce da série 8100 ou superior, para poder usar o mesmo software, e ter os mesmos benefícios, de uma máquina Ion. Quanto mais poderosa a GPU, maior o ganho em desempenho.
A mensagem da NVIDIA com o Ion é a de "computação equilibrada", que já vem sendo apregoada pela empresa há algum tempo. Não adianta ter um PC com um processador superpoderoso e os demais componentes fracos, nem adianta ter a placa de vídeo mais sofisticada do mundo se seu processador é um Celeron ou Turion. Escolhendo sabiamente, é possível ter desempenho satisfatório gastando muito menos.
A ideia e o problema
Um nettop é exatamente isto: um netbook sem o monitor e a bateria, justamente os componentes mais caros. O hardware básico é o mesmo, um processador Intel Atom (quase que invariavelmente rodando a 1.6 GHz), 1 GB ou mais de RAM e pelo menos 160 GB de espaço em disco. Vídeo, som e rede são integrados e fora as portas USB não há qualquer possibilidade de expansão.
O formato varia de acordo com o fabricante: alguns modelos são acondicionados em gabinetes minúsculos, pouco maiores que uma caixinha de um DVD, e para baratear ainda mais não tem sequer um drive óptico. Outros têm todos os componentes montados atrás do monitor, criando os chamados "tudo em um" (All in One), às vezes acompanhados de uma tela sensível ao toque (como o MSI Wind AE1900 ou o Positivo Union Touch) e comercializados como uma máquina multimídia de baixo custo.
De qualquer forma, os nettops parecem ser a próxima onda no mercado de informática, seja como "meu primeiro computador" para usuários iniciantes ou de baixo poder aquisitivo, seja como máquinas secundárias para quem já tem um PC em casa e precisa de uma outra para os filhos.
O problema é que os usuários esperam mais de um micro desktop (mesmo um "nettop") do que de um netbook. Ninguém espera jogar ou editar vídeo em um netbook, mas estas são tarefas comuns em um desktop que um nettop, com seu hardware limitado, tem difi culdade em executar. A máquina pode ser pequena, bonitinha e barata, mas assim que engasgar na hora de editar as fotos das férias será rapidamente taxada como "porcaria".
Uma solução seria adicionar um processador mais potente. Mas isto traz toda uma gama de problemas, já que ele é mais caro e consome mais energia. Isto exige uma fonte de alimentação mais poderosa, um sistema de dissipação de calor mais efi ciente (com ventoinhas maiores) e consequentemente um gabinete maior. De repente, seu nettop já não é mais nem tão barato nem tão pequeno assim, e a ideia vai por água abaixo.
Mas e se, em vez de jogar tudo em cima do processador, fosse possível dividir as tarefas? Adicionar um co-processador capaz de se encarregar da multimídia e ainda dar um "empurrãozinho" em operações que exijam cálculo intenso? Esta é a ideia da NVIDIA com sua plataforma NVIDIA Ion.
